SINOPSE / RELEASE / FICHA TÉCNICA
Um Original, não uma recriação
texto: Franz Anton Cramer
Com mais este regresso a uma obra canônica, poderia dar-se o caso de sermos levados a pensar tratar-se de mais uma tentativa de reafirmação do discurso contemporâneo, dadas as diversas remontagens de Sagração da Primavera, as recriações de Lago dos Cisnes, as infindáveis auto-citações de coreógrafos ou as apropriações de metodologias, inovações e avant-gardes do passado. Anne Collod trabalhou a partir dos Ballet Russes e de Anna Halprin, e Dominique Brun revelou-se uma autoridade no que respeita ao material preparatório usado por Olivier Dubois (ainda que, no caso de Nijinsky, Claudia Jeschke e Ann Hutchinson Guest fossem pioneiros na decifração da partitura de Faune). Mas, actualmente, a historiografia é, entre as disciplinas académicas, uma das mais contestadas no que respeita à dança.
Contudo, na recorrente predilecção e fascínio para com a herança coreográfica, o alemão Raimund Hoghe distingue-se através da sua muito particular perspectiva. O seu universo performático é, por um lado, baseado nas partituras e, por outro, na singularidade dos intérpretes. É na tentativa de estabelecimento de uma ponte que torne constructiva a incompatibilidade de tudo o que é único que ele constrói as suas peças, acabando, elas mesmas, por se tornar afirmações únicas. Após The Rite of Spring, Swan Lake e Boléro Variations, foi a vez de abraçar o momento fundador da dança auto-reveladora, L’aprés-midi d’ un faune, de Vaclav Nijinsky, Claude Debussy and Stéphane Mallarmé.
É, indistintamente este trabalho, em vez do comummente referido Sagração da Primavera (1913) que assinala o início da dança como uma arte autonomamente moderna. E é-o ainda mais para Hoghe cuja afeição por uma situação íntima – uma reservada clareira numa tarde dolente – é mais evidente, quando comparado com uma cena de ritos ancestrais e grandiloquência etnográfica, tal como é sublinhado em Sagração. Esta observação é tanto mais verdadeira quanto analisado o cenário de L’ aprés-midi, estreado no sombrio Théâtre du Hangar, durante o prestigiante Montpellier Danse festival 2008, no passado mês de Junho. Esta obra-prima de uma hora, criada para a actual musa coreográfica de Hoghe, o bailarino francês Emmanuel Eggermont, faz uso de todas as ferramentas que lhe são comuns. A saber, e apenas para citar algumas: rituais minimalistas, musicalidade refinada, extremo respeito tanto pelo intérprete como pelo espectador e pelo dispositivo performático, virtuosa noção de tempo e precisão nos efeitos imagéticos.
E, no entanto, L’après-midi equilibra adulação, reconstituição e originalidade. Adulação, claro, pela beleza do intérprete (literal e artisticamente); reconstituição deste trabalho multifacetado e da sua quase mítica recepção na história; e a sua própria interpretação e apropriação de material simbólico e pesado enquanto peça contemporânea de dança.
O espaço está, como é comum no trabalho de Hoghe, praticamente despido, mas organizado. Nada de adereços, à excepção de dois copos de leite que Hoghe posiciona em vários lugares. Há uma luz discreta (na estreia em Montpellier foi, inclusive, aproveitada a luz do dia que entrava no teatro por uma janela, insistindo num toque idílico e mediterrânico da situação). E há uma banda sonora que combina duas gravações da composição original de Debussy, outras peças de câmara deste autor, e um Lied de Gustav Mahler.
É neste cenário que vemos Eggermont, deitado no chão, com os copos junto à sua cabeça e pés. Hoghe enche-os de leite. A partitura de Debussy será ouvida duas vezes: logo ao início, quando Eggermont se ergue através de uma cadência de nobres e subtis movimentos, como se explorasse o espaço numa clarividência onírica.
Ele enche este espaço lírico e esta estrutura musical com a sua presença. É neste estado encantado que Eggermont permite o surgimento de memórias e alusões ao seu famoso predecessor. A persona de Nijinsky – envolvida numa aura erótica – transformou a peça num escândalo aquando da sua estreia, em 1912, mas também deu à dança um outro nível de auto-confiança. Eggermont e Hoghe estão bem cientes destas sombras sensuais e, ao longo das cinco partes de L’après-midi, o leite vai-se tornando, cada vez mais, um símbolo icónico. E quando é espalhado pelo chão negro, já mais perto do fim, não serão desajustadas algumas associações explícitas aos momentos finais do trabalho original – a imagem de Nijinsky enquanto fauno que copula com o objecto fetichizado, o lenço da ninfa no qual havia tocado apenas uma vez, com o ombro no antebraço dela, durante a coreografia de doze minutos.
Eggermont é um soberbo presente quando se quer construir um universo de gestos meditativos que, no entanto, estão mergulhados numa suavidade Art nouveau, tal como contêm formas contemporâneas de reflexividade. As disposições corporais, como se fossem baixosrelevos, que marcam a inventividade coreográfica de Nijinsky, estão tão presentes quanto hoje em qualquer composição de reduzidos movimentos contemporâneos.Tanto assim é que, com este movimento escultórico e angular, Hoghe traça uma linha com o passado, ao qual se acrescenta contrapeso musical, garantindo que pesquisa gestual é mais do que uma remontagem de L’après-midi.
texto Franz Anton Cramer – Esta crítica foi publicado na OBSCENA #16/17.
http://www.revistaobscena.com/index.php?option=com_content&task=view&id=180&Itemid=145〈=pt
Perfil de Raimund Hoghe
Raimund Hoghe é um caso à parte na dança européia e as suas peças revelam a complexidade de sentidos que um corpo pode produzir. Perfil de uma das mais enigmáticas figuras da dança contemporânea.
Desde os anos 90 que Raimund Hoghe, a viver em Düsseldorf, no Estado de Nordrhein-Westfahlen, trabalha como coreógrafo independente. A princípio, o seu trabalho era seguido com interesse e encorajado na Alemanha, mas o seu ponto de apoio central acabou por se deslocar cada vez mais para a Bélgica e para França, onde se encontra hoje a sede da sua companhia.
O mercado alemão acabou por se distanciar cada vez mais do trabalho de Hoghe. As peças, cuidadosa e minunciosamente trabalhadas, marcadas por um prosaísmo e cujos rituais cênicos se refletiam em peças como Lettere Amorose (1999) e Another Dream (2000), ou, por último, a sua atuação em Régi (2006) com Boris Charmatz, eram vistas com estranheza por uma comunidade que considerava que a dança e a representação eram dissociáveis. Segundo William Forsythe, Johann Kresnik ou Pina Bausch, apenas quando o homem e o seu corpo se movem em grande estilo é que surge a dança. As peças de Hoghe, mais ligadas à poesia e a trabalhos musicais, como Tanzgeschichten (2003) e Young People, Old Voices (2002, apresentada na Culturgest, Lisboa, em 2006) – nunca houve um convite para as apresentar na Alemanha –, baseiam-se, pelo contrário, numa espécie de fôlego prolongado, ajustando-se conforme a duração e perspectiva, sem nunca se esgotarem no efeito causado. Que o aspecto físico de Hoghe – resultado de uma deformação da coluna vertebral: a sua postura encurvada, o seu passo desajeitado, a sua gesticulação por vezes acanhada – não se enquadre à imagem de um mundo de dança perfeita (uma situação à qual ele próprio reage com agressividade), acabou por determinar o resto.
No meio artístico alemão, o aspecto cicatrizado e o desvio são considerados ilegítimos e apenas aceites no meio circense. Em França, pelo contrário, essa particularidade é vista de forma distinta e Raimund Hoghe é considerado um verdadeiro artista, obviamente não devido à sua estatura física, mas sim pelo trabalho realizado na área da coreografia durante mais de dez anos. O seu aspecto físico, apresentado em qualquer trabalho cénico, não é sistematicamente visto como uma ofensa à norma e à integridade física, tal como é na Alemanha. Muito pelo contrário: foi essa mesma deformação que causou sensação e agitou o meio artístico da dança parisiense. Boris Charmatz, a par de Jérôme Bel, um dos mais influentes representantes da coreografia contemporânea e radical em França, voltou a fazer uma peça para palco seis anos depois de ter estado fora do meio artístico.
E para a peça Régi conseguiu a participação do coreógrafo alemão Raimund Hoghe enquanto ator. Charmatz tem um fascínio por Hoghe e transfere-o para o ponto central da sua peça. Após um primeiro e misterioso encontro a meia-luz, Charmatz e Hoghe, como casal desigual, passam a entreter-se um com o outro. Nota-se que se despem. O que se segue é uma quase escandalosa curiosidade por parte de Charmatz, com o seu bonito e atlético corpo de dançarino, pelo corpo repugnante de Raimund Hoghe. Timidamente, Charmatz confronta a sua pele com o toque do seu oposto, refastelando-se em torno de Hoghe, que permanece de costas, imóvel e estatelado no chão. É como se a simetria psíquica não se cansasse de olhar para a caricatura do corpo, como que pretendesse incorporar a experiência do ser distinto debaixo da própria pele. Charmatz pega na mão de Hoghe, passando-a pelas suas costas; ele busca, provoca, põe em cena um movimento que, na sua qualidade erótica e sensual, deveria, no fundo, ser considerada imprópria, escandalosa e impensável. Mas, na verdade, acaba por ser uma manifestação de apreço, uma afirmação do ser possível, uma encenação do todavia. Numa preenchida mas nunca clara luz, Charmatz gira o objeto do seu desejo para outro lado e a “vítima” de um fetiche estranho transforma-se num corpo desnudo e deitado, cuja anatomia distinta se acaba por transformar em sensualidade escultural.
Por fim, Charmatz levanta a ressuscitada marioneta, o manuseador de marionetas (Hoghe), desaparecendo com ele no fundo do escuro. É como se a superioridade da sua curiosidade tivesse vencido, como se a perfeição de um se tivesse regozijado na estranheza do outro, transformando Hoghe em figura-causa. A peça foi poucas vezes representada na Europa e já não se encontra em cartaz.
Depois, Hoghe conseguiu da peça Sacre – The Rite of Spring (2004), em que apresenta um duo com um jovem flamengo de nome Lorenzo De Brabandere, e da comovente peça Swan Lake, 4 Acts (2005), cuja cena final consiste no coreógrafo apresentado simultaneamente como solista, a forma enfática como aceita a sua situação de pessoa solitária, melancólico e colocado à parte pela sociedade, mas que agora, com a peça Bolero Variations (2007), acaba por regressar novamente à ribalta, depois de 36, Avenue Mandel, também deste ano, e inspirado em Maria Callas. A relação especial entre a música, a gesticulação e a sua duração acaba por expressar uma evidência típica. Bolero Variations é uma espécie de síntese das primeiras peças de Hoghes; aí descobre na certeza da composição, do equilíbrio da expressão e da transcrição, de sentimentos e sobridez , da ilustração e referência a si próprio, uma maior e mais formal clareza para compor. A imagem final resume essa complexa estrutura: os participantes, como que num exercício para aquecimento, aguardam com as pernas levemente a baloiçar, enquanto que a luz se apaga. No final dos movimentos históricos e coreográficos, todos permanecem no seu lugar, mas a peça, com todas as suas lembranças, apelos e formas, permanece…
Este perfil foi publicado na OBSCENA #9.
http://www.revistaobscena.com/index.php?option=com_content&view=article&id=181%3Araimund-hoghe&catid=20&Itemid=147〈=pt
“A temporada de 2008/09 começou com uma enorme surpresa para mim; no livro do ano de 2008 da aclamada revista ballet-tanz, fui reconhecido como o ‘dançarino do ano’. Estou vibrante com esta honra. Abaixo o anúncio de imprensa da ballet-tanz:
“A revista européia de dança, a mais reconhecida, ballet-tanz, pediu a 40 críticos independentes de dança para votarem no coreógrafo do ano. Sidi Larbi Cherkaoui, da Bélgica, foi o premiado. Ele dança com monjes Saolin em ‘Sutra’ e investiga o papel da religião em seus trabalhos que viajam internacionalmente, tais como ‘Apokrifu’ e ‘Origine’. Como dançarina do ano, a bailarina llerina Sylvie Guillem, que trabalha em Londres com coreógrafos contemporâneos tais como Akram Khan e Russell Maliphant. Sua contraparte masculina é Raimund Hoghe. Artista residente em Düsseldorf que foi descrito, durante as celebrações no festival de Berlim ‘Tanz im August’, como exemplo único de uma “escola de sensibilidade”. Rosas é a companhia do ano. Após se separar da Ópera De Munt, em Bruxelas, recebeu, agora, um novo apoio do governo do Flanders”. Tenho esperado bastante pela oportunidade em apresentar diferentes peças na próxima temporada. Inicío em Münster, com a estréia de ‘L’Après-midi’, que foi estreiada com muito sucesso no Festival Montpellier Danse 2008.
Raimund Hoghe, September 2008
http://www.danzaballet.com/modules.php?name=News&file=article&sid=2648 (acesso em 30/07/2010)
Um solo para Emmanuel Eggermont
Concepção e Coreografia: Raimund Hoghe
Intérprete: Emmanuel Eggermont
Colaboração artística: Luca Giacomo Schulte
Iluminação: Raimund Hoghe e Dimitar Evtimov
Som: Silas Bieri
Música: Claude Debussy e Lieder de Gustav Mahler, interpretada por Leonard Bernstein, Janet Baker, Sir John Barbirolli, Arturo Beneddetti Michelangeli, Walter Gieseking e David Oistrakh
Produção: Cie Raimund Hoghe
Co-produção: Festival Montpellier Danse 2008 ; Théâtre Garonne (Toulouse) ; Theater im Pumpenhaus Münster Temporada France-Nordrhein-Westfalen 2008/2009 com o apoio da Land of Nordrhein-Westfalen.
Apoio: Centre Chorégraphique National de Franche-Comté em Belfort como « l’accueil-studio » / Ministério da Cultura na França / DRAC Franche-Comté.
APOIO:
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